<![CDATA[Um Fernando Pessoa - Blog]]>Sat, 19 Aug 2017 11:42:51 -0700Weebly<![CDATA[Entre 1908 e 1935]]>Sat, 01 Oct 2016 17:22:26 GMT/blog/entre-1908-e-1935
Estou - no preciso momento em que escrevo este post - a preparar a edição que, espero, sairá em breve na Parceria A. M. Pereira, referente aos "Textos de Juventude" de Fernando Pessoa. Quando se mexe muito no que Pessoa escreveu fica-se com a estranha sensação de conhecer tudo e de não conhecer nada, porque ler tudo separado por tema é diferente de ler tudo de outra forma qualquer. Quer isto só dizer que por vezes aparecem ligações estranhas (e tocantes), como aquela que hoje me apareceu, entre um Pessoa em 1908, com 27 anos (na fotografia em cima ele tinha 26) e o Pessoa que depois escreve a "Carta sobre a Génese dos Heterónimos" em 1935. 

Leiam o que ele escreve (como Alexander Search) em 1908: 

​Nenhuma alma mais amorosa e dócil do que a minha alguma vez existiu, nenhuma alma tão cheia de bondade, cheia de piedade, de todas as coisas da ternura e do amor. No entanto nenhuma alma é tão só quanto a minha – não solitária, note-se, de circunstâncias exteriores mas interiores. Isto é o que eu quero dizer: em conjunto com a minha grande ternura e bondade um elemento de um tipo completamente oposto entra no meu carácter – um elemento de tristeza, de egocentrismo, de egoísmo, e cujo efeito tem duas vertentes: distorcer e impedir o desenvolvimento e conjugação interna total daquelas outras qualidades, e impedir, por afectar a vontade de forma depressiva, a sua inteira conjugação externa, a sua manifestação. Um dia eu analisarei isto, um dia eu examinarei melhor, descriminando, os elementos do meu carácter, porque a minha curiosidade sobre todas as coisas, ligada à minha curiosidade sobre mim mesmo e sobre o meu carácter, irá levar-me à tentativa de entender a minha personalidade.  

E depois em 1935, a Adolfo Casais Monteiro: 

Começo pela parte psiquiátrica. A origem dos meus heterónimos é o fundo traço de histeria que existe em mim. Não sei se sou simplesmente histérico, se sou, mais propriamente, um histero-neurasténico. Tendo para esta segunda hipótese, porque há em mim fenómenos de abulia que a histeria, propriarmente dita, não enquadra no registo dos seus sintomas. Seja como for, a origem mental dos meus heterónimos está na minha tendência orgânica e constante para a despersonalização e para a simulação. Estes fenómenos — felizmente para mim e para os outros — mentalizaram-se em mim; quero dizer, não se manifestam na minha vida prática, exterior e de contacto com outros; fazem explosão para dentro e vivo — os eu a sós comigo. Se eu fosse mulher — na mulher os fenómenos histéricos rompem em ataques e coisas parecidas — cada poema de Álvaro de Campos (o mais histericamente histérico de mim) seria um alarme para a vizinhança. Mas sou homem — e nos homens a histeria assume principalmente aspectos mentais; assim tudo acaba em silêncio e poesia...

Considero este espelho entre o jovem e o adulto Pessoa como algo de imensamente triste e tocante. O contraste entre o que rapaz que ainda sente desconhecer-se e o homem que já se conhece para além da possibilidade de mudar. 

É esta a razão que me fará, provavelmente, quebrar o plano de edição que tinha preparado e tentar publicar, depois de "Textos de Juventude" a biografia de Fernando Pessoa que já podem ler no site (embora com muitos erros e editada de forma amadora, por falta de tempo). 

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<![CDATA[Sobre o "pensamento poético-filosófico de Fernando Pessoa"]]>Sat, 30 Jul 2016 20:24:21 GMT/blog/sobre-o-pensamento-poetico-filosofico-de-fernando-pessoa

​Quem segue o nosso blog sabe que ao longo dos anos temos dado especial destaque a todos os estudos Pessoanos em redor do tema da poesia enquanto linguagem filosófica na obra do pensador Português. Penso há muito que a chave para Pessoa ser revelado enquanto o enorme pensador que é reside precisamente na descrição simples de que sistema pode sair dessa relação entre poesia e filosofia nos seus escritos. É uma tarefa impossivelmente difícil, por duas óbvias razões: 1) A esmagadora maioria dos leitores e/ou estudiosos de Pessoa consideram-no um poeta e não um pensador; 2) Mesmo os que o possam considerar um pensador, não conseguem ver de que forma poderia existir um sistema de pensamento na sua escrita, porque a consideram dispersa e incompleta. 

É por esta razão que a maioria dos estudiosos da filosofia em Pessoa se limitam a analisar o que ele escreveu sobre Filosofia e não sobre a filosofia que ele escreveu. Não os podemos censurar por isso, mas também não podemos ficar satisfeitos. Ocasionalmente surgem estudos filosóficos Pessoanos que dão um passo em frente, ousando passar para além do óbvio. Hoje apresentamos mais um deles, a tese de Gisele Candido intitulada 
O desassossego e o pensamento poético-filosófico de Fernando Pessoa, apresentada em 2015 na Universide de São Paulo, Brasil. 

​O mérito imediato da tese de Gisele Candido sumariza-se no seu título - ela não teme relacionar poesia e filosofia, introduzindo curiosamente o tema do desassossego como misterioso terceiro elemento. O mério é acrescido quando lemos no sumário da tese o seguinte: "Ainda que frequentemente os escritos de Fernando Pessoa sejam relacionados e cotejados à obra de diversos autores da filosofia, escassos são os trabalhos que buscam revelar seu teor filosófico próprio. ".  

Segundo Candido, é Fausto a obra que abre o tema filosófico em Pessoa, enquanto momento preparatório ou antecâmara do fenómeno heteronímico; onde a tensão impossivel entre pensar e viver exerce no pensador a influência decisiva para os seus escritos mais tardios. Mais do que tensão, paradoxo; pois o pensamento impede a vida e a vida impede o pensamento. Será este mal-estar que gerará o sentimento de desassossego, sentimento que Candido julga essencial no pensamento poético-filosófico Pessoano. Candido parece ver também os heterónimos enquanto potenciais soluções elaboradas para lidar com esta problemática entre o pensar e o viver e, mais precisamente, com a problemática da impossibilidade de resolver o problema do conhecimento pela razão. 

Devo dizer que foi a primeira vez que vi, de forma esquematizada, o uso de um processo que eu próprio já uso durante muitos anos: a transição sequencial entre problema e solução em Pessoa, explicando de forma muito sucinta (e nada psicológica) a geração necessária dos heterónimos enquanto "experiências gnosiológicas". A visão que traduzi nos meus volumes sobre Caeiro, Campos, Reis e o Livro do Desassossego, seguem precisamente este esquema e não poderia estar mais de acordo com o que Candido escreve. As "atitudes" filosóficas dos heterónimos são, inquestionavelmente, atitudes "contra" o Destino e formam sistemas de pensamento parciais, que no entanto não devem ser autonomizados. Aqui reside, penso, algum do perigo quando os olhamos separadamente, quando eles podem e devem ser lidos pela chave do (Livro do) Desassossego. Candido faz isso mesmo quando colocada perante a magna questão da dispersão em Pessoa - qual o ponto unificador? Ela responde: o desassossego. Ela diz: "a incidência do desassossego também colocará em questão o sujeito dessa existência e sua relação com mundo", e com isso transcende a compreensão básica de um sentimento para uma atitude plenamente filosófica - a explosão fenomenológica do ser-eu no ser-outros. 

Como se pode expressar esta aventura senão pela arte. Aqui entra a poesia enquanto "linguagem do inefável". A problematização filosófica escapa às categorias racionais da filosofia tradicional e transmuta-se em poética filosófica. Isto - note-se - é uma concepção profundamente anti-platónica, porque as formas passam a habitar o mundo de forma indistinta de tudo o resto. Aliás, Platão sempre odiou os poetas por esta exacta razão e por isso mesmo os baniu da sua República. Mas Pessoa cedo percebeu que este era o único caminho possível e isso prova-se verdadeiro quanto assistimos à crise presente da filosofia que parece ter perdido o seu objecto, quando na verdade nunca teve um objecto, quando na sua essência nada nela se pode objectificar senão caindo no erro de aceitar o caminho estreito do conceito em vez da rua larga dos significados. Mas adiantamo-nos na nossa leitura da tese de Candido, que, antes de chegar a conclusões analisa em pormenor primeiro o Fausto e depois Caeiro. Fases necessárias se bem que o seu desenvolvimento se lê de forma menos agradável, tendo eu preferido que a autora as tivesse conseguido inserir sem intercalar tanto o texto. Lêem-se quase como apêndices e isso é uma grande pena porque interrompem a força inicial da tese, que se perde quando entre no pormenor analítico dessas partes, infelizmente nunca mais a recuperando da mesma forma inicial. 

Criticamos a forma como a tese decai de uma ideia muito forte e original para entrar em análises de pormenor de cada heterónimo mas plenamente conscientes de que seria difícil ser de outro modo. Talvez seja apenas possível elaborar o "livro perfeito" sobre a filosofia Pessoana quando ignorarmos a presença dos heterónimos enquanto corpos estranhos, porque na realidade falamos deles enquanto peças de um sistema que antes defendemos não existir... Percebe-se a inevitabilidade mas não podemos deixar de apontar a estranheza da mesma. E é este erro de analisar os heterónimos quando os devemos ignorar que leva Candido a desviar a sua atenção (e tempo) do que deveria ter sido uma mais profunda investigação sobre a poesia enquanto linguagem do inefável em Pessoa para uma dissertação mais superficial que quase nada consegue sair do ponto de vista da subjectivação do eu na multiplicação das visões poéticas heteronímicas. Uma pena, realmente, porque o início é tão prometedor que nos achamos no fim lamentando profundamente que as pistas iniciais não tenham sido seguidas.  

Mas este lamento é, ele próprio, um elogio enorme. Penso que ninguém antes de Candido terá aflorado academicamente desta forma a relação entre poesia e filosofia em Pessoa. No entanto urge-se maior coragem futura e desafia-se a autora - que mostra bem que é capaz - de seguir em outras obras as pistas que lançou tão corajosamente nesta.  Se a pudemos auxiliar de alguma forma, diriamos que é necessário esquecer as partes pelo sistema e trabalhar no método e no fim; é preciso questionar o que é a filosofia Pessoana, quais os seus objectivos e como se posiciona na contemporaneidade. É preciso, finalmente e essencialmente, posicionar a própria filosofia Pessoa contra o pensamento analítico e desenvolver uma solução que nos apresente, de forma inequívoca, Pessoa enquanto resposta de sucesso onde o existencialismo falhou depois do vazio deixado pela morte de Deus.
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<![CDATA["Fernando Pessoa, a homossexualidade, a identidade de género, e as mulheres"  - Uma apreciação crítica]]>Sat, 25 Jun 2016 22:39:51 GMT/blog/fernando-pessoa-a-homossexualidade-a-identidade-de-genero-e-as-mulheres-uma-apreciacao-critica

"Fernando Pessoa, a homosexualidade, a identidade de género, e as mulheres" é um volume publicado pela editora Nota de Rodapé, que contém uma selecção de textos de Pessoa precisamente sobre os temas supracitados, organizados por Victor Correia. 


Como muitos dos livros publicados sobre Pessoa, este volume gera desde logo uma desconfiança legítima por parte de quem gosta do autor. A desconfiança vem naturalmente da forma como estes temas foram tratados no passado recente, nomeadamente na biografia de Cavalcanti. Será este apenas mais um autor a aproveitar-se da polémica para aumentar a sua própria notoriedade (e lucros)?

Antecipando a nossa conclusão diremos claramente que não. O esforço deste livro é notoriamente ponderado e inteligente, embora possa partir de princípios com os quais não concordamos. Mas essa é outra questão que deve desde já ser apresentada por nós. 


Victor Correia parece claramente apresentar Pessoa enquanto sendo homossexual. Pelo menos assim se entende do seu prefácio. Mas um pouco mais à frente a questão parece transferir-se para uma sexualidade fluida (tanto em voga na nossa modernidade que bem se pode dizer que foi outro tema antecipado por Pessoa) acabando com uma conclusão que nos parece tudo menos clara quando diz que compreender a dimensão homossexual de Pessoa (ou da obra de Pessoa) é afinal só uma forma de compreender melhor a sua angústia existencial... a indefinição que o organizador parece procurar no poeta afinal encontra-a na sua própria escrita. Devo dizer que não me choca nada que Pessoa pudesse ser homossexual, eram-no muitos artistas seus contemporâneos, mas um livro deste género só fará sentido se partirmos de uma clara (se bem que presumida) intenção de ver ou não o autor enquanto um autor homossexual. Aliás, essa é outra coisa que nos confunde: será a presença da homossexualidade assim tão gritante na obra de Pessoa que seja necessário um volume deste género? Penso que não, pela simples razão de que Pessoa foi muito mais do que um escritor preso a uma temática tão fechada.  

Parecemos voltar ao início. Torna-se então este livro um exercício de aproveitamento? Novamente dizemos que não. É só pena que o organizador não seja claro na forma como qualifica o autor que "analisa". Penso que o prefácio é a pior parte do livro, precisamente por confundir quem vai pensar neste tema em Pessoa. 

Não é que seja precisamente um campo novo. Cesarinny foi talvez o que mais genialmente o abordou no seu livro "Virgem Negra". Mas Cesarinny era motivado por querer derrubar um mestre. Qual a motivação de Victor Correia? Apresentar Pessoa enquanto bissexual, homossexual, panssexual ou até assexual mas apenas para o efeito de ilustrar a forma como essa identidade se misturava com todas as outras questões de identidade no autor? Embora a selecção de textos seja de grande qualidade e o esforço seja notório no rigor, perde-se o objectivo global do livro. 

No livro que eu próprio organizei, pouco pretensioso, apenas com a intenção de gerar curiosidade no leitor para que leia mais de Pessoa, não falei em homossexualidade mas sim em sexo. Continuo a pensar que é o sexo que mais preocupava Pessoa, mas não a identidade sexual senão o simbolismo do acto enquanto acto exterior de dádiva e ligação ao outro, seja ele homem ou mulher. 

As primeiras 35 páginas deste livro podem ser lidas aqui.  
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<![CDATA[2 sessões de autógrafos na Feira do Livro 2016]]>Fri, 03 Jun 2016 22:08:43 GMT/blog/2-sessoes-de-autografos-na-feira-do-livro-2016

​Tenho o prazer de anunciar que estarei presente na Feira do Livro 2016, em duas sessões de autógrafos, no pavilhão da Parceria A. M. Pereira (VASP). 

Dia 4, das 18h às 19h30
Dia 11, das 15h às 17h
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<![CDATA[Ophélia. O eterno amor, mas para sempre desencontrados.]]>Sat, 13 Feb 2016 20:38:36 GMT/blog/ophelia-o-eterno-amor-mas-para-sempre-desencontrados]]>